. : 11ª Mostra Mundo Árabe de Cinema : .

Mídia




Postado em 02/08/2016

Dois convidados falaram ao público esta semana na Livraria Martins Fontes, em São Paulo, no Ciclo de Conversas sobre Cultura Árabe e Islâmica, iniciativa do ICArabe em parceria com a livraria. Na terça-feira, Geraldo Adriano Godoy de Campos, curador da 11ª Mostra Mundo Árabe de Cinema (que começa dia 10), fez um panorama sobre o cinema árabe. Na quarta, o jornalista e ex-correspondente internacional do jornal Folha de São Paulo, Samy Adghirni.

Pesquisador da Cátedra Edward Said de Estudos Contemporâneos da Unifesp e professor de Sociologia das Relações Internacionais da ESPM, Geraldo tratou da diversidade do cinema árabe na atualidade. “Seria difícil unificar em uma definição só. Poderíamos falar em cinemas árabes e, não, em cinema árabe”, afirmou.

Geraldo discorreu sobre a dificuldade de caracterizar se um filme é árabe ou não, com base no local onde foi filmado ou na origem de seus produtores, por exemplo. “Todas essas questões são colocadas. A gente está falando de 22 países. É impossível pensar no cinema deles sem as dinâmicas geopolíticas”, afirmou. Um exemplo é o cinema palestino “que tem uma questão histórica particular: o exílio como questão central desde 1948.”

O curador também tratou dos estereótipos em relação ao cinema árabe, como baixa qualidade e pouca participação de mulheres, e a representação do mundo árabe no cinema ocidental. “Há produções riquíssimas em locais de conflito como Síria e Gaza. Se você for a festivais internacionais, a maioria dos produtores é composta por mulheres”, disse. “Há (no cinema ocidental) o que se chama de ‘Arabialândia’. Às vezes se fala que está no Afeganistão, mas foi gravado na Líbia. A ideia é criar um território homogêneo. O cinema árabe faz o contrário ao mostrar as particularidades e dar sentido aos espaços”, declarou.

A professora de francês Eliane Arakaki, que assistiu à palestra, contou ao Portal ICArabe sobre seu interesse pelo cinema do Oriente Médio. “O cinema árabe é muito difícil de ser mapeado pelas questões que foram levantadas na palestra, pela quantidade de países e a questão de existirem vários Estados e nações com características distintas”, afirmou.

O egípcio brasileiro Ahmed Hassanen, 64, elogiou o palestrante e o debate. “Geraldo é sábio com a cultura árabe. O cinema é como a literatura, um livro branco que pode conter todos esses conceitos culturais. Vamos entender quando assistirmos os filmes da Mostra”, disse ele que já esteve em praticamente todas as edições.

Jornalismo em zonas de guerra
Na quarta-feira (3), o jornalista Samy Adghirni falou sobre sua experiência cobrindo conflitos em países como a Líbia, Iraque, Síria e Palestina. Atualmente ele está na Venezuela e foi responsável pela notícia de que o governo venezuelano havia barrado a passagem de senadores brasileiros no ano passado.

“Se você não estiver inteiro para escrever, você não vai escrever. Primeiro você sobrevive e depois manda a matéria”, afirmou Adguirni sobre a dificuldade de cobrir os conflitos.

Conforme o jornalista, há pouco tempo para organizar a viagem devido à rapidez dos acontecimentos e a atual crise econômica faz hoje com que existam poucos correspondentes brasileiros. A sobrevivência nos locais depende dos chamados “fixers”, os guias que levam para os lugares e principalmente atravessam as fronteiras junto. “Um bom fixer resolve a sua vida. Um mau pode te colocar em um grande problema. Sai por $ 200 ao dia”, conta ele que disse já ter sua equipe enganada por quatro pessoas em um mesmo dia em meio a zonas de conflito. “É desesperador. Há a dificuldade com policiais mal intencionados, rebeldes tentando te extorquir. É preciso ter estômago. Nunca cobri cidades e de repente você está pisando em corpos. É fácil também adoecer por conta da situação precária. Jornalista é para mandar notícias, não virar a notícia”, brincou.

Questionado pela plateia sobre assaltos, ele afirma isto não ocorrer mesmo em meio à guerra. “Você vai morrer com um míssil, mas ninguém vai te roubar um relógio. Roubar é muito feio no Oriente Médio”, declarou.

Samy Adguirni ainda falou sobre o Irã, onde também já foi correspondente e sobre o qual escreveu o livro “Os Iranianos”. “O país mais estável (da região) é o Irã. É um Estado autoritário e o que mais se falar, mas é muito firme”, afirma. “As dificuldades eram muitas (na cobertura). É um Estado onipresente, tem uma guarda moral na rua, o Estado monitorando tudo o que você escreve”. Ele contou que, pouco antes de deixar o país, houve um colega preso pelo governo e que teve sua vida “arruinada”. “Você não pode fazer matéria sobre gays, mas pode fazer sobre o governo pagar operações de troca de sexo para quem nasceu no corpo errado”, critica.

A jornalista Cleni Leal, tia de Adguirni que estava na plateia, conta que seu trabalho no mundo árabe também é um retorno às origens, já que ele é filho de marroquino. “Acho fundamental trazer a cultura árabe (por meio de reportagens). De certa forma, a mídia ocidental não a reflete. Desde pequeno ele era aficionado pela cultura árabe e hoje pode contribuir para mostrar a verdade”, afirma.

O funcionário público Mauricio da Silva gostou da conferência. “Gosto muito da cultura árabe, um evento como este é fantástico. Como seria bom se as pessoas se interessassem mais pela cultura mundial, fossem atrás de quem conhece, de quem viveu nos lugares e pode mostrar um outro lado”, afirmou. “Não devemos acreditar em coisas mastigadas a respeito do mundo.

É importante buscar a sua própria identidade, a opinião de quem realmente sabe das coisas”, conclui.
A próximas palestra do Ciclo será realizada no dia 30, com o diretor de Comunicação do ICArabe, Arturo Hartmann, sobre a Palestina.

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Postado em 02/08/2016

A rotina de cinco freiras que fizeram voto de silêncio no meio do deserto da Cisjordânia é interrompida quando uma família de colonos israelenses aparece em sua porta para pedir ajuda, após bater o carro na parede do convento. Os israelenses não podem telefonar para pedir socorro devido às leis do Shabat, dia sagrado para os judeus; e as freiras, tampouco, por conta do voto de silêncio. Juntos, eles têm que colocar em prática um plano para ajudar os visitantes a chegar em casa. Esta é a história contada pelo curta metragem “Ave Maria” (Palestina, França e Alemanha), comédia indicada ao Oscar em 2016 e premiada em diversos festivais (assista ao trailer aqui), uma das atrações da 11ª Mostra Mundo Árabe de Cinema, que começa dia 10 de agosto em São Paulo (saiba mais aqui).
Em entrevista ao ICArabe, o diretor Basil Khalil falou sobre os desafios de filmar a comédia e as expectativas para a ewxibição do curta na Mostra. Leia a seguir:
 
ICArabe - Qual foi sua inspiração para o filme?
Basil Khalil - Tendo sido criado em Nazaré, fui inspirado por um convento carmelita, perto da casa da minha avó, que abrigava sete freiras que haviam feito voto de silêncio. Essa rotina de dedicação e silêncio em uma cidade barulhenta e movimentada despertou minha imaginação.

ICArabe - Fazer um filme que gira em torno de religiões pode ser arriscado. Quão desafiante foi escrever um roteiro sobre isso?
Basil Khalil - A comédia é capaz de nos mostrar o quão estúpido e absurdo é um lado pensar que é melhor que o outro. Todo mundo pensa que a sua opinião, raça ou religião é melhor, mas no final eles são todos iguais, os seres humanos. O único desafio que eu tinha era estar escrevendo comédia, que é muito difícil. Eu tentei ficar longe de comédia paternalista, além de piadas muito específicas, que só alguns iriam entender. Após 2 anos reescrevendo, eu consegui equilibrar o roteiro, no qual o absurdo da situação é a comédia e não piadas e ação.

ICArabe - Como a sua própria experiência ajudou este filme? Você é uma pessoa religiosa?
Basil Khalil - Escrevi-o a partir da minha experiência pessoal de ter nascido e criado em Nazaré, na Palestina/Israel. No momento em que se nasce em uma determinada religião/raça você tem amigos e inimigos instantaneamente atribuídos e tem que viver por certas regras de conduta, mesmo sem escolhê-las. Às vezes as pessoas escolhem algumas regras mais extremas, que são feitas pelo homem, mas eles acreditam que são uma questão de vida ou morte, quando na verdade estas regras só atrapalham a interação humana. Fazer este filme tem enfatizado as minhas crenças de que o dogma e a fé devem ser pessoais; bondade e respeito devem ser compartilhada por todos.

ICArabe - Seu filme foi exibido na Palestina e Israel? Qual foi o impacto causado por e a reação em ambas as regiões?
Basil Khalil - O filme foi exibido em festivais lá, teve lançamento seguindo a indicação ao Oscar e está no iTunes. Eu não pude participar de todas as exibições, mas disseram-me que as pessoas entenderam no filme a mensagem e o humor. Eu acho que as pessoas entendem o absurdo das políticas que as controlam e enxergaram isto nos 14 minutos do filme.

ICArabe - Qual foi o seu maior obstáculo durante a produção?
Basil Khalil - As cenas mais difíceis foram as cenas externas, já que escolhi filmar em um mosteiro abandonado no Vale do Jordão, perto de Jericó. Conhecido como Qasr El Yahood, fica no meio de uma zona de campo minado e militar controlada pelo exército israelense. Eu tive que pedir a um assistente de produção judeu com um sotaque israelense perfeito que solicitasse a permissão do exército israelense para filmar lá. Felizmente, o pedido foi aprovado, mas com uma condição: de que desocupássemos o local até as 18h. Isto significaria que a equipe teria apenas sete horas para filmar algo que normalmente levaria 11 horas para fazer, então eles teriam que trabalhar muito rápido, sem almoço ou inrtervalos para café, filmando sem parar. Às 17:50 um jipe do exército aparecia durante o fechamento da filmagem e, literalmente, nos escoltava para fora do set. Felizmente, conseguimos terminar a tempo.

ICArabe - A imagem da Virgem Maria é um forte ícone para milhões de brasileiros católicos. Quais são as suas expectativas para o filme em nosso festival?
Basil Khalil - Eu gostaria que as pessoas se distanciassem e se sentissem confortáveis para “questionar as regras". Nós temos tantas regras tácitas da sociedade para respeitar, mesmo sem saber o porquê. Isso não significa que todas as regras são ruins, mas devemos, pelo menos, conhecê-las e sermos convencidos a respeito da razão pela qual as seguimos.

ICArabe - Como você vê o diálogo que os filmes árabes estão estabelecendo com as produções latino-americanos? Você vê elementos comuns entre eles?
Basil Khalil - Eu acho que as emoções humanas e histórias são universais. A língua ou religião podem ser diferentes, mas as emoções são as mesmas em todos os lugares.

ICArabe - Como você vê os períodos sociais e políticos que vêm ocorrendo no mundo árabe desde os movimentos da Primavera Árabe?
Basil Khalil - O que começou como um lampejo de esperança foi sequestrado pelas pessoas erradas. Você não consegue construir uma democracia em um dia. E após séculos de ditaduras (ainda em curso), não será fácil estabelecer a democracia sem luta. Olhe para os Estados Unidos, estabeleceram-se 240 anos atrás em princípios democráticos, mas eles tinham a escravidão na época, e que era aceitável naquele tempo. Eles evoluíram pouco a pouco, e assim fazem todos os outros países. Impérios vêm e vão, nada será sempre o mesmo. Portanto, temos esperança de que o mundo árabe vai se tornar melhor. No entanto, os seres humanos pode ser tão compassivos como cruéis.

ICArabe - Estamos vivenciando a tragédia da migração humana forçada e o impacto sobre as vidas de milhões de refugiados. E também estamos assistindo à xenofobia crescente. Você faria um comentário sobre este assunto?
Basil Khalil - Hoje as pessoas da Síria, Iraque e Afeganistão, entre outros, estão buscando refúgio na Europa por conta das guerras. Há 70 anos europeus estavam em busca de refúgio da guerra. E em 70 anos a partir de agora, quem sabe quem vai estar escapando da guerra? Nós. seres humanos, temos que ajudar uns aos outros, porque não sabemos quando a nossa vez chegará de precisar da ajuda de outra pessoa.

ICArabe - Você acredita cinema pode ajudar a batalha contra o preconceito?
Basil Khalil - Eu acredito que os filmes podem contar histórias de diferentes culturas e pessoas, que a mídia sensacionalista não mostrará. Você nunca vai ouvir uma notícia sobre uma história de amor da Palestina, apenas as histórias negativas. E é aí que o cinema pode brilhar. Podemos contar histórias reais de emoções reais e pessoas reais e como, no fim das contas, neste mundo, não somos tão diferentes uns dos outros.

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11ª Mostra Mundo Árabe de Cinema
De 10 de agosto a 28 de agosto de 2016 | Realização Instituto da Cultura Árabe - ICArabe
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